Educação: a difícil arte de formar caracteres

Por Allan Marques

Em tempos de transição planetária, quando a Terra, gradativamente, vai deixando a condição de mundo de expiações e provas, passando à fase da regeneração, a Humanidade se vê às voltas com tantas questões delicadas no campo moral.

Pode-se afirmar, sem sombra de dúvida, que muitas dessas dificuldades são fruto do nosso descuido com relação à educação. E para deixar bem claro a que tipo de educação nos referimos, importante relembrar o nobre codificador da Doutrina Espírita, Allan Kardec, quando elucida em O Livro dos Espíritos, questão 685-a: Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que consiste na arte de formar os caracteres, à que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos”.

Assim, vale recordar a experiência de Licurgo, legislador espartano, que ao ser convidado a ministrar uma palestra sobre o poder da educação, aceitando o convite, solicitou um prazo de seis meses a fim de se preparar. Decorrido o período - considerado estranho pelos que o conheciam, dada sua capacidade para falar do tema a qualquer momento – ele compareceu perante o público, tomou seu lugar à tribuna e logo em seguida, entraram dois criados, cada um trazendo duas gaiolas; em cada gaiola, um tipo de animal, duas lebres e dois cães.

A um sinal de Licurgo, um dos criados abriu a porta de uma das gaiolas e a pequena lebre saiu a correr; logo em seguida o outro criado abriu a gaiola em que estava o cão e este saiu atrás da lebre. Com facilidade alcançou a lebre e a comeu rapidamente. A cena chocou a platéia. Todos, admirados, não conseguiam entender o que Licurgo desejava com tal agressão. Mesmo assim, ele nada falou. Tornou a repetir o sinal para os criados e a outra lebre foi solta. A lebre saiu também correndo, saltitante como a primeira. A seguir, o outro cão foi solto.

O povo, ainda surpreso com a primeira cena, já previa outro massacre, quando vislumbrou algo inusitado: o cão correu atrás da lebre para alcançá-la como fez o primeiro. Entretanto, em vez de devorá-la, bateu-lhe com a pata e ela caiu. Logo a lebre ergueu-se e se pôs a brincar com o cão. Para espanto de todos, os dois ficaram a demonstrar tranquila convivência, correndo e brincando de um lado a outro do palco.

Ao fim da apresentação, o sábio legislador enfatiza: Senhores, acabais de assistir a uma demonstração do que pode a educação; ambas as lebres são filhas da mesma matriz, foram alimentadas igualmente e receberam os mesmos cuidados. Assim, igualmente, os cães; a diferença entre os primeiros e os segundos é simplesmente a educação.

Mas, nos perguntamos: se os homens reconhecem o valor grandioso dessa ferramenta, a educação, onde estamos errando? Por que a sociedade tem presenciado tantas cenas de violência e corrupção, vendo aumentar o número de depressivos e suicidas num momento de tantas conquistas tecnológicas e avanços da inteligência?

Para responder a esses questionamentos, é fundamental nos darmos conta de que esta é uma tarefa que compete à família. A escola, como ambiente próprio ao desenvolvimento de habilidades no campo do intelecto, deve ser responsável pela instrução das criaturas reencarnadas no planeta. Educar, ao contrário do que muitos imaginam, representa nobilíssimo encargo de pais e daqueles que ocupam seu lugar no núcleo familiar.

Evocando mais uma vez o excelso Codificador, na questão número 208 de O Livro dos Espíritos, ele indaga aos Imortais: “Nenhuma influência exercem os Espíritos dos pais sobre o filho depois do nascimento deste?”, ao que Eles respondem: “Bem grande influência exercem (...) têm por missão desenvolver seus filhos pela educação. Constitui-lhes isso uma tarefa. Tornar-se-ão culpados, se vierem a falir no seu desempenho”. Tal resposta não deixa margem a qualquer dúvida sobre o papel de pai e mãe nesta fase especial do planeta em transição.

Interessante perceber que desde eras remotas, antes mesmo da vinda do Cristo à Terra, pensadores e filósofos atentos à proposta educacional já expressavam aquilo que na atualidade verificamos na prática. É de Pitágoras, por exemplo, a lúcida advertência: “Educai as crianças, para que não seja necessário punir os adultos”.

E por falar no Cristo, modelo e guia para toda a Humanidade, não poderíamos encerrar esta pequena reflexão, sem destacar o maior educador que já passou pelo planeta. Em João, 13:13, Ele mesmo reconhece seu papel de orientador ao afirmar: “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou”.

Nesta época de tantas dúvidas e questionamentos, onde valores são colocados em xeque, nada melhor do que evocar o exemplo do Mestre Galileu, que reunia a doçura de mãe e a energia de pai, demonstrando com tanta sabedoria, a importância da educação no processo de transformação individual e coletivo na Terra.